Lua Nova

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Para Bella Swan, há uma coisa mais importante do que a própria vida: Edward Cullen. Mas estar apaixonada por um vampiro é ainda mais perigoso do que ela poderia ter imaginado. Edward já resgatara Bella das garras de um mostro cruel, mas agora, quando o relacionamento ousado do casal ameaça tudo o que lhes é próximo e querido, eles percebem que seus problemas podem estar apenas começando… Legiões de leitores que ficaram em transe com o best-seller “Crepúsculo” estão ávidos pela seqüência da história de amor de Bella e Edward. Em “Lua nova”, Stephenie Meyer nos dá outra combinação irresistível de romance e suspense com um toque sobrenatural. Apaixonante e cheia de reviravoltas surpreendentes, essa saga de amor e vampiros segue rumo à imortalidade literária.

Capítulos 2 e 3 de Lua Nova (Quem não leu ainda e não quer saber, nem leia)

2. Pontos

Celisle foi o único que permaneceu calmo. Séculos de experiência nas salas de emrgência ficavam evidentes na sua voz calma, autoritária.
“Emmett, Rose, tirem Jasper daqui”.
Sem sorrir pela primeira vez, Emmett balançou a cabeça. “Vamos lá, Jasper”.
Jasper lutou contra o aperto inquebrável de Emmett, se remexendo, avançando na direção do irmão com os dentes á amostra, os olhos ainda estavam sem razão.
O rosto de Edward estava mais branco que papel quando ele se arrastou pra se curvar sobre mim, numa postura claramente defensiva.
Um rugido baixo de aviso escapou por entre seus dentes trincados.
Eu podia perceber que ele não estava respirando.
Rosalie, se divino rosto estranhamente presumido, ficou na frente de Jasper- mantendo uma cuidadosa distância dos seus dentes – e ajudou Emmett a levar ele pra fora pela porta de vidro que Esme segurou aberta, com uma mão tapando a boca e o nariz.
O rosto com formato de coração de Esme estava envergonhado. “Eu sinto muito, Bella”, ela lamentou enquanto seguia os outros até o jardim.
“Me deixe passar, Edward”, Carlisle murmurou.
Um segundo se passou, e então Edward balançou a cabeça lentamente e relaxou de sua posição.
Carlisle se ajoelhou á meu lado, se inclinando mais pra perto pra examinar meu braço. Eu podia sentir o choque congelado no meu rosto e tentei me recompor.
“Aqui, Carlisle”, Alice disse o entregando uma toalha.
Ele balançou a cabeça. “Tem muito vidro na ferida”. Ele se aproximou e arrancou uma tira longa e fina da toalha que cobria a mesa. Ele torceu a tira no meu braço logo acima do cotovelo como um torniquete. O cheiro do sangue estava me deixando tonta. Meus ouvidos zumbiam.
“Bella”, Carlisle disse levemente. “Você quer que eu te leve até o hospital, ou você prefere que eu cuide disso aqui”.
“Aqui, por favor”, eu sussurrei. Se ele me levasse pra o hospital, não ia ter jeito de esconder de Charlie.
“Eu vou pegar sua maleta”, Alice disse.
“Vamos levá-la para a mesa da cozinha”, Carlisle disse pra Edward.

Edward me levantou sem esforço enquanto, Carlisle mantinha a pressão firme no meu braço.
“Como você está, Bella?”, Carlisle me perguntou.
“Eu estou bem”, minha voz estava razoavelmente firme, o que me deixou contente.
O rosto de Edward parecia pedra.
Alice estava lá. A maleta de Carlisle já estava sobre a mesa, uma mesa pequena mas brilhante com uma luz plugada na parede. Edward me sentou gentilmente na cadeira, e Carlisle puxou outra. Ele começou a trabalhar imediatamente.
Edward ficou ao meu lado, ainda me protegendo, ainda sem respirar.
“Vai, Edward”, eu suspirei.
“Eu aguento”, ele insistiu. Mas a mandíbula dele estava rígida; seus olhos queimavam com a intencidade da sede que ele sentia que ele lutava, que era muito pior pra ele que para os outros.
“Você não precisa ser um herói”, eu disse. “Carlisle pode cuidar de mim sem sua ajuda. Vá tomar um ar fresco”.
Eu gemí quando Carlisle fez alguma coisa no meu braço que doeu como uma picada.
“Eu fico”, ele disse.
“Porque você é tão masoquista?” eu murmurei.
Carlisle decidiu interceder. “Edward, você deve encontrar Jasper antes que ele vá longe demais, e eu duvido que ele vá ouvir alguém que não seja você agora”.
“Sim”, eu disse ansiosamente. “Vá encontrar Jasper”.
“Você deve fazer alguma coisa útil”, Alice acrescentou.
Os olhos de Edward se estreitaram enquanto nós o atacávamos em grupo, mas, finalmente, ele balançou a cabeça uma vez e saiu suavemente pela porta de trás da cozinha. Eu tinha certeza de que ele não havia respirado desde o momento que eu cortei o dedo.
Uma sensação entorpecida, morta, estava se espalhando pelo meu braço.
Apesar disso acabar com a dor, me lembrou do corte, e eu observei cuidadosamente o rosto de Carlisle pra me distrair do que ele estava fazendo no meu braço. O seu cabelo irradiava dourado na luz brilhante enquanto ele se inclinava sobre o meu braço. Eu podia sentir as leves sensações de incomodo, mas eu estava determinada a não deixar as minhas fraquezas tomarem conte de mim.

Não havia dor agora, só uns puxõezinhos, que eu estava tentando ignorar. Não era motivo pra ficar enjoada como um bebê.
Se ela não estivesse na minha linha de visão, eu nem teria visto Alice desistir e sair da cozinha. Com um pequeno sorriso que pedia desculpas nos lábios, ela desapareceu pela porta da cozinha.
“Bom, já foram todos”, eu suspirei. “Eu posso limpar uma sala, pelo menos”.
“Não é culpa sua” Carlisle me confortou com uma risada. “Poderia acontecer com qualquer um”.
Poderia“, eu repetí. “Mas geralmente só acontece comigo”.
Ele riu de novo.
Sua calma relaxada era ainda mais incrível em contraste com a reação dos outros. Eu não conseguí achar nem um traço de ansiedade nos olhos dele. Ele trabalhava com movimentos rápidos, certeiros.
O único som além das nossas respirações calmas era o som do plink, plink enquanto os pequenos fragmentos de vidro caíam um a um na mesa.
“Como é que você consegue fazer isso?”, eu quis saber. “Até Alice e Esme…” eu parei, balançando minha cabeça em dúvida. Apesar do resto da família também ter desistido da tradicional dieta dos vampiros tão absolutamente quanto Carlisle, ele era o único que podia sentir o cheiro de sangue sem sofrer com a intensa tentação.
Claramente, isso era muito mais difícil do que ele queria fazer parecer.
“Anos e anos de prática”, ele me disse. “Eu quase não sinto mais o cheiro”.
“Você acha que seria mais difícil se você tirasse umas longas férias do hospital, e não houvesse nenhum sangue por perto?”
“Talvez”, ele levantou os ombros, mas suas mãos continuaram firmes.
“Eu nunca sentí necessidade de longas férias”. Ele mostrou um grande sorriso brilhante na minha direção. “Eu gosto muito do meu trabalho”.
Plink, plink, plink.. Eu estava surpresa de ver quanto vidro parecia ter no meu braço. Eu estava tentada em olhar para a pilha crescendo, só pra checar o tamanho, mas eu sabia que a idéia não seria de grande ajuda para a minha estratégia de não vomitar.
“Do que é que você gosta?” eu imaginei.

Pra mim não fazia sentido – os anos de luta e negação que ele deve ter passado até alcansar o ponto que ele conseguria lidar com isso tão facilmente. Além do mais, eu queria manter ele falando; a conversa mantinha minha cabeça longe da sensação de enjôo do meu estômago.
Seus olhos escuros estavam calmos e pensativos enquanto ele falava.
“Hmm. O que eu gosto mais é quando minhas… habilidades adquiridas me deixam salvar uma pessoa que poderia estar perdida. É bom saber que, graças ao que eu faço, a vida de algumas pessoas é melhoer porque eu existo. Até o cheiro do sangue é uma ferramenta que me ajuda as vezes”. Um dos lados da boca dele se levantou num meio sorriso.
Eu pensei nisso enquanto ele me cutucava, pra ter certeza que todos os cacos do meu braço haviam saído. Então ele procurou na sua maleta por outras ferramentas, e eu tentei não reparar na agulha e na linha.
“Você dá muito duro pra tentar se redimir de uma coisa que nunca foi culpa sua”, eu sugerí enquanto outro tipo de picada começou a puxar os cantos da minha pele. “O que eu quero dizer é, você não pediu por isso. Você não escolheu esse tipo de vida, e mesmo assim você tem que trabalhar tão duro pra ser bom”.
“Eu não acho que esteja me redimindo por nada”, ele discordou suavemente. “Como tudo na vida, eu só tive que escolher o que fazer com o que me foi dado”.
“Isso faz tudo parecer fácil”.
Ele examinou meu braço de novo. “Aí”, ele disse, cortando a linha.
“Tudo pronto”. Ele pegou uma gaze grande, molhando-a com uma espécie de xarope colorido, e a colocou ao redor da saturação.
O cheiro era estranho; fez minha cabeça rodar. O xarope queimou minha pele.
“No começo, porém” eu pressionei enquanto ele amarrava outro pedaço de gaze seguramente no lugar, lacrando ela no meu braço. “Porque é que você sequer pensou em viver de outra maneira que nãpo da maneira mais óbvia?”
Seus lábios se ergueram num sorriso privado. “Edward já não te contou essa história?”
“Sim. Mas eu estou tentando entender o que você estava pensando…”

Seu rosto estava repentinamente sério de novo, e eu me perguntei se os pensamentos dele teriam ido para o mesmo lugar que os meus. Imaginando em que eu estaria pensando quando – eu me recusava a pensar em um se – fosse eu.
“Você sabe que meu api era um clérigo”. ele meditou enquanto limpava cuidadosamente a mesa, esfregando tudo com uma gaze molhada, e depois fazendo tudo de novo. O cheiro de alcool queimou no meu nariz. “Ele tinha uma visão muito dura do mundo, que eu já estava começando a questionar quando eu fui mudado”. Carlisle pôs a gaze suja e os pedaços de vidro dentro de um vaso de cristal vazio.
Eu não entendí o que ele estava fazendo, mesmo quando ele acendou o fósforo. Então ele o jogou nas fibras encharcadas de álcool, e a explosão me fez pular.
“Desculpe”, ele se desculpou. “Isso vai dar conta… Então eu não concordava com o ponto de visto do meu pai sobre fé particularmente. Mas nunca, nesses quase quatrocentos anos desde que eu nascí , eu ví alguma coisa que me fizesse duvidar da existência de Deus, de uma forma ou de outra. Nem mesmo a reflexão do espelho”.
Eu fingí examinar o curativo no meu braço pra esconder a minha surpresa com o curso que a nossa conversa havia tomado. Religião era a única coisa que eu não esperava, de todas as coisas que eu considerei. Minha própria vida era muito destituída de crenças.
Charlie se considerava um Luterano, porque os seus pais haviam sido, mas durante os Domingos ele só rezava se fosse na beira do rio com uma vara de pesca na mão. Renée havia tentad a igreja de ver em quando, mas, assim como os seus casos com o Tênis, as aulas de cerâmica, Ioga e de Francês, ela resolvia desistir quando ficava sabendo de outra novidade.
“Eu sei que tudo isso parece bizarro, especialmente vindo de um vampiro”. Ele sorria, sabendo que o uso da palavra sempre acabava me chocando. “Mas eu espero que haja um sentido nessa vida, mesmo pra nós. É um longo período, eu admito,” ele continuou num tom desinteressado. “De todas as formas, estamos decididamente amaldiçoados.

Mas eu espero, talvez inutilmente, que nós ganhemos alguma espécie de crédito por tentar”.
“Eu não acho que isso é inútil”, eu murmurei. Eu não conseguia imaginar, todo mundo incluído, alguém que não ficasse impressionado com Carlisle. Além do mais, o único tipo de paraíso que eu iria apreciar tinha que incluir Edward. “Eu não acho que as outras pessoas achariam também”.
“Na verdade, você é a primeira a concordar comigo”.
“Os outros não acham o mesmo?”, eu perguntei, surpresa, pensando em uma pessoa em particular.
Carlisle adivinhou a direção dos meus pensamentos de novo.
“Edward concorda comigo me um ponto. Deus e o paraíso existem… e o inferno também. Mas ele não acredita em uma outra vida pra o nosso tipo”. Carlisle falava com uma voz muito suave; ele olhava pela grande janela em cima da pia, olhando para a escuridão. “Entenda, ele acha que somos almas perdidas”.
Imediatamente eu pensei nas palavras de Edward nessa tarde: a não ser que você queira morrer – ou o que quer que seja que nós fazemos. Uma pequena lâmpada estalou na minha cabeça.
“Esse é o problema real, não é?” eu adivinhei. “É por isso que ele está sendo tão difícil em relação a mim”.
Carlisle falou vagarosamente. “Eu olho para o meu… filho.
Sua força, sua bondade, seu brilho que esplandece por fora dele – e isso só enche aquela esperança, aquela fé, mais do que nunca. Como poderia não haver algo mais para alguém como Edward?”
Eu afirmei com a cabeça, concordando fervorosamente.
“Mas se eu acreditasse no que ele acredita…”, ele olhou pra baixo pra mim com olhos insondáveis. “Se você acreditasse no que ele acredita. Você poderia tirar a alma dele?”
O jeito como ele colocou a frase obstruíu minha resposta.
Se ele tivesse me perguntado se eu arriscaria minha alma por Edward, a resposta seria óbvia. Mas será que eu poderia arriscar a alma de Edward? Eu torcí meus lábios infeliz. Isso não era muito justo.
“Você vê o problema”.
Eu balancei minha cabeça, consciente da posição teimosa do meu queixo.

Carlisle suspirou.
“É minha escolha”, eu insistí.
“E dele também”. Ele levantou a mão quando viu que eu estava disposta a discutir. “Ele será responsável por fazer isso com você”.
“Ele não é o único que pode fazer isso”, eu olhei pra Carlisle sugestivamente.
Ele riu, abruptamente suavizando o humor. “Oh, não! Você vai ter que acertar isso com ele” Mas então ele suspirou. “É dessa parte que eu nunca tenho certeza. Eu acho, na maioria das maneiras, que eu fiz o melhor com o que eu tinha. Mas será que foi certo impor os outros a esse tipo de vida? Eu não consigo decidir”.
Eu naõ respondí. Eu iamginei como minha vida seria se Carlisle tivesse resistido a tentação de viver um vida menos solitária… e tremí.
“Foi a mãe de Edward que fez minha cabeça”.
A voz de Carlisle era quase um suspiro. Ele olhou pelas janelas escuras sem ver nada.
“A mãe dele?” Toda vez que eu tentava falar com Edward sobre os seus pais, ele só dizia que eles haviam morrido há muito tempo e que as lembranças dele eram vagas. Eu me dei conta de que as memórias de Carlisle, apesar da brevidade do contato deles, seriam perfeitamente claras.
“Sim. O nome dela era Elizabeth. Elizabeth Masen. O pai dele, Edward pai, nunca recobrou a consciência no hospital. Ele morreu no primeiro ataque da Gripe. Mas Elizabeth estava alerta até quase o final. Edward se parece muito com ela – o mesmo estranho tom de bronze do cabelo, e os olhos eram exatamente do mesmo tom de verde”.
“Os olhos dele eram verdes?”, eu murmurei, tentando imaginar.
“Sim…” Os olhos escuros de Carlisle estavam a cem anos de distância agora. “Elizabeth estava obscessivamente preocupada com o filho. Ela acabou com as próprias chances que tinha de viver por ter ficado como enfermeira dele no leito. Eu esperava que ele morresse primeiro, ele estava muito pior do que ela. Quando o fim chegou pra ela, foi muito rápido. Foi logo depois do pôr do sol, e eu cheguei pra aliviar os médicos que haviam trabalhado o dia inteiro.

Essa era uma péssima hora pra fingir- havia tanto trabalho pra ser feito, e eu não precisava de mais nada. Como eu odiava voltar pra minha casa, me esconder no escuro e fingir que estava dormindo quando haviam tantas pessoas pessoas morrendo.
“Eu fui checar Elizabeth e seu filho primeiro. Eu acabei me apegando- sempre uma coisa perigosa a se fazer levando em conta a natureza frágil dos humanos. Eu podia ver que ela havia piorado. A febre estava fora de controle, e o seu corpo estava fraco demais pra continuar lutando.
“Porém, ela não parecia fraca quando olhou pra mim na sua maca.
“‘Salve ele!’ ela me comandou com uma voz rouca que era tudo o que a garganta dela conseguia.
“‘Eu farei tudo em meu poder’, eu prometí, pegando a mão dela. A febre dela estava tão alta que eu acho que ela nem podia sentir o quanto a minha era sobrenaturalmente fria. Tudo era muito frio para a pele dela.
“Você precisa”, ela insistiu, apertando minha mão com tanta força que eu até cheguei a imaginar se ela não superaria a crise no final. Os olhos dela estavam duros, como pedras, como esmeraldas. ‘Você deve fazer qualquer coisa sobre o seupoder. O que os outros não podem fazer, é isso que você deve fazer pelo meu Edward”.
“Isso me assustou. Ela me olhou com aqueles olhos penetrantes, e, por um instante, eu tive certeza de que ela sabia o meu segredo. E então a febre tomou conta dela, e ela nunca mais recobrou a consciência. Ela morreu uma hora depois de fazer o seu pedido.
“Eu havia passado décadas consciderando a idéia de criar alguma companhia pra mim. Só uma outra criatura que me conhecesse de verdade, pra que eu não precisasse fingir ser o que não era. Mas eu não podia justificar isso pra mim mesmo- fazer com alguém o que havia sido feito comigo.
“Lá estava Edward, morrendo. Era claro que ele só tinha mais algumas horas. Ao lado dele, a mão dele, seu rosto de certa forma ainda não estava em paz, nem na morte”.
Carlisle via tudo de novo, sua memória enterrada no século que intervia.

Eu podia ver claramente também, enquanto ele falava- o desespero no hospital, a atmosfera dominante de morte. Edward queimando de febre, sua vida se esvaíndo a cada tique do relógio… eu tremí de novo, e forcei a idéia a sair da minha mente.
“As palavras de Elizabeth ecoavam na minha mente. Como ela podia ter adivinhado o que eu fazia? Será que alguém realmente poderia querer isso pra um filho?
“Eu olhei pra Edward. Doente como estava, ele ainda era lindo. Havia algo puro e bom em seu rosto. O tipo de rosto que eu queria que meu filho tivesse.
“Depois de todos aqueles anos de indecisão, eu simplesmente agí num impulso. Eu levei a sua mãe para o necrotério antes, e depois voltei para pegá-lo. Ninguém percebeu que ele ainda estava respirando. Não haviam mãos suficientes, olhos suficientes, pra dar conta de metade do que os paciêntes precisavam. O necrotério estava vazio- de vivos, pelo menos. Eu robei ele pela porta traseira, e o carreguei pelos telhados até a minha casa.
“Eu não tinha certeza do que precisava ser feito. Eu me preparei pra recriar as mesmas feridas que eu mesmo havia recebido, tantos séculos atrás em Londres. Eu me sentí mal por isso depois. Foi mas doloroso e mais demorado do que precisava ter sido.
“Eu não estava arrependido, todavia. Eu nunca lementei ter salvado Edward”. Ele balançou a cabeça, voltando ao presente. Ele sorriu pra mim. “Eu acho que devia te levar pra casa agora”.
“Eu faço isso”, Edward disse. Ele veio pela sla de jantar escura, caminhando muito devagar pra ele. O rosto dele estava suave, ilegível, mas havia algo errado com os olhos dele- algo que ele estava dando muito duro pra esconder. Eu sentí um espasmo de incômodo no estômago.
“Carlisle pode me levar”, eu disse. Eu olhei pra baixo pra minha camiseta; o algodão azul estava encharcado e manchada com meu sangue. Meu ombro direito estava coberto com uma cor rosada que estava grudada.
“Eu estou bem”, a voz de Edward não passava emoção. “Você vai precisar se trocar, de qualquer jeito.

Você vai fazer Charlie ter um ataque do coração desse jeito. Eu vou pedir pra Alice te dar alguma coisa”. Ele saiu pela porta da cozinha de novo.
Ei olhei pra Carlisle ansiosamente. “Ele está muito chateado”.
“Sim”, Carlisle concordou. “Essa noite era exatamente o tipo de coisa que ele mais temia. Você ser colocada em risco, por causa do que é”.
“Isso não é culpa dele”.
“E nem sua”.
Eu olhei pra longe de seus olhos lindos, sábios. Eu não podia concordar com isso.
Carlisle me ofereceu a mão e me ajudou a descer da mesa. Eu o acompanhei até a sala principal. Esme havia voltado; Ela estava limpando o chão onde eu havia caído- com desinfetante puro, pelo cheiro.
“Esme, me deixe fazer isso”. Eu podia sentir que meu rosto estava de um vermelho brilhante de novo.
“Eu já terminei”. Ela sorriu pra mim. “Como você se sente?”
“Eu estou bem”, eu assegurei. “Carlisle costura mais rápido do que qualquer outro médico que eu já conhecí”.
Os dois gargalharam.
Alice e Edward entraram pela porta traseira. Alice correu para o meu lado, mas Edward ficou pra trás, seu rosto indecifrável.
“Vamos”, Alice disse. “Eu vou arranjar algo menos macabro pra você usar”.
Ela encontrou uma blusa de Esme que era de uma cor parecida com a minha. Charlie não ia reparar, eu tinha certeza. O grande curativo no meu braço já não parecia mais ser tão sério agora que não estava mais coberto de sangue. Charlie nunca ficava surpreso ao me ver com um curativo.

“Alice”, eu sussurrei enquanto ela voltava para a porta.
“Sim?”, ela manteve a voz baixa também, e olhou pra mim curiosamente, com a cabeça caída para o lado.
“É muito ruim?”, eu não sabia se os meus sussurros eram um sacrifício inútil. Mesmo estando aqui em cima, com a porta fechada, talvez ele pudesse me ouvir.
O rosto dela ficou tenso. “Eu ainda não tenho certeza”.
“Como está Jasper?”
Ela suspirou. “Ele está muito descontente consigo mesmo. Ainda é um grande desafio pra ele, e ele odeia se sentir fraco”.
“Não é culpa dele. Você vai dizer que eu não estou com raiva dele, nem um pouco, não vai?”
“É claro”.
Edward estava me esperando na porta da frente. Quando eu cheguei no pé das escadas ele a segurou aberta sem nenhuma palavra.
“Pegue as suas coisas!”, Alice pediu enquanto eu andava cautelosamente na direção de Edward. Ela segurou os dois pacotes, um meio aberto, e minha câmera que estava em baixo do piano, e colocou tudo no meu braço bom. “Você me agradece depois quando os tiver aberto”.
Esme e Carlisle deram um boa noite baixinho. Eu podia vê-los dando olhadas furtivas para o seu filho impassível, assim como eu.
Eu fiquei aliviada em estar do lado de fora; eu me apressei pra passar pelas lanternas e pelas rosas, elas não eram boas memórias.
Edward acompanhou meu passo silenciosamente. Ele abriu a porta do passageiro pra mim, e eu entrei sem reclamar.
No painél havia um grande laço de fita, preso ao som novo. Eu o arranquei, jogando no chão. Enquanto Edward entrava pelo outro lado, eu chutei o laço pra debaixo do banco.
Ele não olhou pra mim ou para o som. Nenhum de nós o ligou, e de alguma forma o silêncio se intensificou com o estrondo do motor. Ele dirigiu rápido demais pela escura estrada em formato de serpente.
O silêncio estava me deixando louca.
“Diga alguma coisa”, eu finalmente implorei enquanto ele entrava na auto estrada.
“O que você quer que eu diga?”, ele me perguntou com uma voz desinteressada.

Eu bajulei a imparcialidade dele. “Diga que me perdoa”.
Isso trouxe uma pontada de vida para o rosto dele- uma pontada de raiva. “Perdoar você? Pelo que?”
“Se eu tivesse sido mais cuidadosa, nada disso teria acontecido”.
“Bella, você se cortou com papel- eu duvido que isso mereça uma pena de morte”.
“Ainda assim é minha culpa”.
Minhas palavras abriram a comporta.
“Sua culpa? Se você tivesse se cortado na casa de Mike Newton, com Jéssica e Angela e os seus outros amigos normais, o que poderia ter acontecido de tão horrível? Talvez eles não tivessem encontrado um curativo? Se você tivesse tropeçado e esbarrado numa pilha de pratos de vidro – sem que alguém tivesse te jogado em cima deles – mesmo assim, o que seria tão ruim? Você derramar sangue no banco do carro enquanto eles te levavam pra o pronto socorro? Mike Newton poderia ter segurado a sua mão enquanto eles te davam os pontos- e ele não precisaria lutar contra a ânsia de te matar enquanto estivesse lá dentro. Não tente jogar isso pra cima de você, Bella. Isso só vai me deixar ainda mais enojado comigo mesmo”.
“Como diabos Mike Newton veio parar nessa conversa?”, eu quis saber.
“Mike Newton veio parar nessa conversa porque seria muito mais saudável pra você estar com Mike Newton”, ele rosnou.
“Eu prefiria morrer do que ficar com Mike Newton”, eu protestei.
“Eu prefiro morrer do que ficar com uma pessoa que não seja você”.
“Não seja melodramática, por favor”.
“Tudo bem então, não seja ridículo”.
Ele não respondeu. Seus olhos olhavam pelo para brisa, sua expressão estava obscura.
Eu fucei no meu cérebro pra encontrar uma forma de salvar a noite. Quando ele parou na frente da minha casa, eu ainda não tinha pensado em nada.
Ele desligou o motor, mas suas mãos continuaram fechadas no volante.
“Você vai ficar essa noite?”, eu perguntei.
“Eu devia ir pra casa”.
A última coisa que eu queria era que ele fosse embora sentindo remorso.
“Pelo meu aniversário”, eu pressionei.

“Você não pode ter as duas coisas – ou você quer que as pessoas ignorem seu aniversário ou não. Um ou outro”.
A voz dele estava dura, mas não tão séria quanto antes. Eu dei um leve suspiro de alívio.
“Tudo bem, eu decidí que não quero que você ignore meu aniversário. Te vejo lá em cima”.
Eu saí, e me inclinei pra dentro de novo pra pegar meus presentes. Ele fez uma careta.
“Você não tem que pegar isso”.
“Eu quero eles”, eu respondí automaticamente, e depois imaginei se ele estaria usando psicologia reversa.
“Não quer não. Carlisle e Esme gastaram dinheiro com você.”
“Eu vou sobreviver”. Eu enfiei os presentes de forma estranha embaixo do meu braço bom e batí a porta atrás de mim. Ele estava fora da caminhonete e atrás de mim em menos de um segundo.
“Me deixe carregá-los, pelo menos”, ele disse enquanto os tirava de mim. “Eu estarei no seu quarto”.
Eu sorrí. “Obrigada”.
“Feliz aniversário”, ele disse, e se inclinou pra tocar seus lábios nos meus.
Eu me inclinei na pontas dos pés pra fazer o beijo durar mais quando ele se afastou. Ele deu meu sorriso torto favorito, e então desapareceu na escuridão.
O jogo ainda estava sendo transmitido; assim que eu entrei eu pude ouvir os anúncios das jogadas em meio aos gritos da torcida.
“Bell?”, Charlie chamou.
“Oi, pai”, eu disse enquanto aparecia no corredor. Eu segurei meu braço bem do meu lado. A leve pressão queimou e eu torcí meu nariz. Aparentemente o anestésico estava perdendo o efeito.
“Como foi?” Charlie se espreguiçou no sofá com seus pés descalsos num dos braços. O que ainda sobrava do seu cabelo marrom cacheado estava grudado em um dos lados.
“Alice enlouqueceu. Flores, bolo, velas, presentes – A coisa toda”.
“O que eles te deram?”
“Um som para o meu carro”. E vários não conhecidos.
“Uau”.
“É”, eu concordei. “Bem, por hoje chega”.
“Te vejo amanhã de manhã”.
Eu acenei. “A gente se vê”.
“O que aconteceu com seu braço?”
Eu corei e xinguei baixinho. “Eu caí. Não é nada”.
“Bella”, ele suspirou, balançando a cabeça.
“Boa noite, pai”.

Eu subí correndo pra o banheiro, onde eu mantinha o meu pijama para noites como essa. Eu entrei na camiseta combinando com a calça de algodão que eu comprei pra repor as antigas que eu usava na cama, gemendo com o movimento que puxou os pontos.
Eu lavei meu rosto com uma mão, escovei os dentes, e estão me mandei pro meu quarto.
Ele estava sentado no centro da minha cama, brincando á toa com uma das caixas prateadas.
“Oi”, ele disse. Ele disse. Sua voz estava triste. Ele estava se remexendo.
Eu fui para a cama, puxei os presentes das mãos dele, e me arrastei para o colo dele.
“Oi”, eu ronronei no seu peito de pedra. “Posso abrir meus presentes agora?”
“De onde foi que veio todo esse entusiasmo?”, ele se perguntou.
“Você me deixou curiosa”.
Eu peguei o grande retângulo achatado que devia ser o presente de Carlisle e Esme.
“Me permita”, ele sugeriu. Ele pegou o pacote da minha mão e arrancou o papel prateado com um único movimento fluido. Ele devolveu a cxaixa retangular branca pra mim.
“Você tem certeza que eu vou conseguir levantar a tampa?”, eu murmurei, mas ele me ignorou.
Dentro da cixa havia um longo papel grosso com um monte de palavras impressas. Me levou um minuto pra entender as informações que elas passavam.
“Nós vamos pra Jacksonville?”, e eu estava excitada, a despeito de mim mesma. Era um comprovante de passagens de avião, pra mim e pra Edward.
“Essa é a idéia”.
“Eu não posso acreditar. Renée vai enlouquecer! Contudo, você não se importa, não é? Lá faz sol, você terá que ficar em casa o dia inteiro”.
“Eu acho que posso aguentar”, ele disse, e então fez uma careta.
“Se eu soubesse que você responderia tão apropriadamente ao presente, eu teria feito você abrir na frente de Esme e Carlisle. Eu pensei que você fosse reclamar”.
“Bem, é claro que isso é demais. Mas eu vou levar você comigo!”
Ele gargalhou. “Agora eu queria ter gasto mais dinheiro no seu presente. Eu não sabia que você era capaz de ser razoável”.

Eu coloquei as passagens de lado e me inclinei pra pegar o presente dele, minha curiosidade redobrou. Ele o tomou de mim e arrancou o papel que nem o primeiro.
Ele me devolveu uma caixa de Cd transparente, com só um Cd prateado dentro.
“O que é?”, eu perguntei, perplexa.
Ele não disse nada; ele pegou o CD e se curvou por trás de mim pra colocá-lo no Cd player na mesa do lado da minha cama. Ele apertou Play, e nós esperamos em silêncio. E então a música começou.
Eu escutei, sem palavras, com os olhos esbugalhados. Eu sabia que ele estava esperando pela minha reação, mas eu não conseguí falar nada.
As lágrimas começaram a aparecer, e eu tentei limpá-las antes que elas começassem a rolar.
“Seu braço está doendo?”, ele perguntou ansiosamente.
“Não, não é o meu braço. É lindo, Edward. Você não poderia ter me dado uma coisa que eu amasse mais. Eu não consigo acreditar”. Eu calei a boca pra poder ouvir.
Era a música dele, suas composições. A primeira faixa do Cd era a minha canção de ninar.
“Eu não achei que você me deixaria comprar um piano pra tocar pra você aqui”, ele explicou.
“Você está certo”.
“Como está o seu braço”.
“Está ótimo”. Na verdade, ele estava começando a queimar em baixo do curativo. Eu queria gelo. Eu teria colocado a mão dele, mas isso teria me entregado.
“Eu vou pegar um Tylenol pra você”.
“Eu não preciso de nada”, eu protestei, mas ele me tirou do colo dele e começou a andar na direção da porta.
“Charlie”, eu assobiei. Charlie não estava necessariamente consciente de que Edward ficava aqui com certa frequencia. Na verdade, ele teria um enfarto se isso chegasse aos ouvidos dele. Mas eu não me sentia muito culpada por estar enganado ele. Não era como se eu estivesse fazendo algo que ele não gostaria que eu fizesse. Edward e suas regras…
“Ele não vai me pegar”, Edward prometeu enquanto desaparecia silenciosamente pela porta… e voltava, segurando a porta antes que ela se fechasse. Ele estava segurando um copo e a caixa de remédio em uma das mãos.

Eu peguei os remédios que ele me ofereceu sem reclamar- eu sabia que sairia perdendo da discussão, e meu braço realmente estava começando a me incomodar.
Minha canção de ninar continuou, num adorável fundo musical.
“Está tarde”, Edward notou. Ele me levantou da cama com um braço, e colocou o lençol de volta com a outra. Ele me colocou com a cabeça no travesseiro e jogou a colcha por cima de mim. Ele se deitou perto de mim- em cima das cobertas pra que eu não ficasse com frio- e colocou o braço por cima de mim.
Eu encostei minha cabeça no ombro dele e suspirei alegremente.
“Obrigada de novo”, eu sussurrei.
“De nada”.
Eu fiquei quieta por algum tempo enquanto esperava minha canção de ninar acabar. Outra música começou. Eu reconhecí a favorita de Esme.
“No que você está pensando?”, eu imaginei num sussurro.
Ele hesitou por um longo segundo antes de me dizer. “Na verdade, eu estava pensando no certo e errado”.
Eu sentí um arrepio percorrer minha espinha.
“Lembra de quando eu decidi que queria que você não ignorasse meu aniversário?”, eu perguntei rapidamente, esperando que não ficasse claro demais que eu que eu estava tentando distraí-lo.
“Sim”, ele concordou, cautelosamente.
“Bem, eu estava pensando, que já que é meu aniversário, você poderia me beijar de novo”.
“Você está muito gananciosa hoje”.
“Sim, eu estou- mas por favor, não faça nada que você não quiser fazer”.
Ele sorriu e então suspirou. “Que os céus não permitam que eu tenha que fazer algo que não quero fazer”, ele disse num tom estranhamente desesperado enquanto colocava a mão dele embaixo do meu queixo e puxava o meu rosto pra o dele.
O beijo começou como sempre- Edward estava tão cuisadoso como sempre, e meu coração começou e responder como sempre. E então alguma coisa pareceu mudar. De repente seu lábios ficaram muito mais urgentes, as mãos dele foram para o meu cabelo e ele segou meu rosto seguramente no seu.

E, apesar de minhas mãos estarem no cabelo dele também, e apesar de eu estar claramente começando a cruzar as linhas de segurança, pela primeira vez ele não me parou. O corpo dele stava frio através da colcha, mas eu me apaertei contra ele ansiosamente.
Quando ele parou foi abrupto; ele me afastou com mãos gentís, firmes.
Eu caí no meu travesseiro, ofegando, minha cabeça rodando. Alguma coisa estalou na minha memória, evasivamente, só nas beiradas.
“Desculpe”, ele disse, sem fôlego também. “Isso passou dos limites”.
Eu não me importo”, eu garantí.
Ele fez uma careta pra mim no escuro. “Tente dormir, Bella”.
“Não, eu quero que você me beije de novo”.
“Você está superestimando meu auto-controle”.
“O que é mais tentador pra você, meu sangue ou meu corpo?”, eu desafiei.
“É apertado” Ele deu um breve sorriso, a despeito de sí mesmo. “Agora, porque é que você não para de testar sua sorte e vai dormir?”
“Tá”, eu concordei, chegando mais pra perto dele. Eu realmente me sentia exausta. Foi um dia longo de várias maneiras, e mesmo assim eu não me sentia aliviada por ele estar acabando. Eu quase sentia que algo pior estava vindo amanhã. Era uma premonição boba- o que podia ser pior do que hoje? Só o choque tomando conta de mim, sem dúvida.
Tentando ser singela, eu enconstei meu braço ferido no ombro dele, para que o seu bralo gelado o fizesse parar de queimar. Eu me sentí melhor na hora.
Eu já estava meio caminho do sono, talvez mais, quando eu me dei conta do que aquele beijo me lembrava: primavera passada, quando ele teve que se separar de mim pra tirar James da minha cola, Edward me deu um beijo de despedida, sem saber quando- ou se- nós nos veríamos de novo. Esse beijo tinha quase a mesma pontada de dor por alguma razão que eu não conseguia imaginar. Eu tremí já inconsciente, como se estivesse tendo um pesadelo.


3. O Fim

Eu me sentia absolutamente péssima de manhã. Eu não tinha dormido bem, meu braço queimava, e minha cabeça doía. Não ajudou muito ver que o rosto de Edward estava suave e remoto enquanto ele beijava a minha testa rapidamente e saía pela minha janela. Eu estava com medo do tempo que fiquei inconsciente, com medo de que ele estivesse pensando sobre o certo e o errado de novo enquanto me via dormindo. A ansiosidade pareceu aumentar ainda mais a intensidade da dor na minha cabeça.
Edward estava esperando por mim na escola, como sempre, mas ainda havia algo errado no seu rosto. Ainda havia alguma coisa enterrado nos seus olhos da qual eu não tinha certeza – e isso me assustava.
Eu não quis falar no assunto na noite passada, mas eu não tinha certeza se evitar falar no assunto seria pior.
Ele abriu minha porta pra mim.
“Como você se sente?”
“Perfeita”, eu mentí, sentindo dor quando o som da porta batendo ecoou na minha cabeça.
Nós andamos em silêncio, ele diminuiu seu passo pra alcançar a velocidade do meu.
Haviam tantes perguntas que eu queria fazer, mas maioria das perguntas teria que esperar, porque elas eram pra Alice: Como estava Jasper essa manhã? O que eles disseram quando eu fui embora?
O que Rosalie disse?
E o mais importante, O que ela podia ver acontecendo nas suas estranhas e imperfeitas visões do futuro? Ela poderia adivinhar o que Edward estava pensando, porque ele estava tão estranho?
Qual era a razão dessa sensação tenaz, instintiva de medo que eu sentia, e que aparentemente não conseguia esquecer?
A manhã se passou devagar. Eu estava impaciente pra ver Alice, apesar de não poder realmente falar com ela se Edward estivesse lá.
Edward permaneceu indiferente.
Ocasionalmente ele me perguntava sobre o meu braço, e eu mentia.
Alice geralmente nos encontrava no almoço; ela não andava feito um bicho-preguiça como eu. Mas ela não estava na mesa, esperando com uma bandeja de comida que ela não ia comer.
Edward não disse nada sobre a ausência dela.

Eu perguntei a mim mesma se a aula dela teria acabado mais tarde- até que eu ví Conner e Ben, que tinham aula de Francês no quarto horário com ela.
“Onde está Alice?”, eu perguntei ansiosamente pra Edward.
Ele olhou para a barra de granola que estava lentamente pulverizando entre os dedos enquanto respondia. “Ela está com Jasper”.
“Ele está bem?”
“Ele vai ficar fora por algum tempo”.
“O que? Onde?”
Edward levantou os ombros. “Nenhum lugar em particular”.
“E Alice também”. Eu disse baixinho, desesperada. É claro que, se Jasper precisava, ela iria com ele.
“Sim. Ela vai ficar fora por algum tempo. Ela está convencendo ele a ir á Denali”.
Denali era onde o outro bando de vampiros únicos – bons como os Cullen – vivia. Tanya e sua família. Eu ouvia falar neles de vez em quando. Edward foi ficar com eles no inverno passado quando a minha chegada deixou Forks difícil pra ele. Laurent, o membro mais civilizado do bando de James, preferiu ficar lá do que ajudar James a lutar contra os Cullen. Tinha sentido Alice encorajar Jasper a ir pra lá.
Eu engoli, tentando fazer o súbito nó na minha garganta desaparecer.
A culpa fez minha cabeça se curvar e meus ombros caírem. Eu fiz eles fugirem de casa, assim como Rosalie e Emmett. Eu era uma praga.
“Seu braço está te incomodando?”, ele perguntou solicitamente.
“Quem liga pro meu braço estúpido?”, meu murmurei em desgosto.
Ele não respondeu e eu coloquei a minha cabeça na mesa.
No fim do dia, o silêncio já estava ficando ridículo. Eu não queria ser a pessoa a quebrá-lo, mas aparentemente essa era a minha única escolha se eu queria que ele falasse comigo de novo.
“Você vai aparecer hoje á noite?” Eu perguntei enquanto ele me acompanhava- silenciosamente- até a minha caminhonete. Ele sempre aparecia á noite.
“Mais tarde?”
Me agradou que ele tenha parecido surpreso. “Eu tenho que trabalhar. Eu troquei meu horário com a Sra Newton por ter faltado ontem”.
“Oh”, ele murmurou.
“Mas você vai vir mais tarde quando eu estiver em casa, certo?”

Eu odiava de repente não ter mais tanta certeza disso.
“Se você quer que eu vá”.
“Eu sempre quero”, eu lembrei ele, com talvez um pouco mais de intensidade do que a conversa requeria.
Eu esperei que ele fosse rir, ou sorrir, ou reagir de alguma forma ás minhas palavras.
“Tudo bem, então”, ele disse indiferente.
Ele beijou minha testa de novo antes de fechar a porta pra mim. Então ele me deu as costas e foi andando graciosamente até o seu carro.
Eu conseguí sair do estacionamento antes do pânico realmente bater, mas eu já estava hiperventilando quando cheguei nos Newton.
Ele só precisava de tempo, eu disse pra mim mesma. Ele ia lidar com isso. Mas talvez ele estivesse tão triste porque a família dele estava desaparecendo. Mas Alice e Jasper voltariam logo, e Rosalie e Emmett também. Se isso ajudasse, eu ficaria longe da grande casa branca perto do rio – eu nunca pisaria lá de novo. Não me importava.
Eu ainda iria ver Alice na escola. E ela ia pra minha casa o tempo todo de novo. Ela não ia querer machucar os sentimentos de Charlie ficando longe.
Sem dúvida eu sempre iria esbarrar com Carlisle também – no pronto socorro.
Afinal, o que aconteceu ontem não foi nada.
Nada aconteceu. Então eu me sentí mal – era a história da minha vida. Comparado com o que aconteceu primavera passada, isso parecia especialmente sem importância. James me deixou quebrada e praticamente morta por perda de sangue – e ainda assim, Edward aguentou comigo as interminaveis semanas de hospital muito melhor que isso.
Será que era porque dessa vez não era de um inimigo que ele precisava me proteger? Porque era o irmão dele?
Talvez fosse melhor se ele me levasse embora, ao invés da família dele se separar. Eu fui ficando um pouco menos deprimida enquanto considerava tudo isso sem interrupções durante algum tempo.
Se ele fosse capaz de esperar até o término do ano escolar, Charlie não seria capaz de se opor. Nós iriamos embora para a faculdade, ou fingir que era isso que estávamos fazendo, como Rosalie e Emmett.

Edward certamente podia esperar um ano. O que era um ano para um imortal? Isso não parecia muito nem pra mim.
Eu consegui me compor o suficiente pra sair da caminhonete e andar até a loja.
Eu ia substituir Mike Newton hoje, ele sorriu e acenou pra mim quando eu entrei. Eu peguei meu uniforme, balançando a cabeça vagamente na direção dele. Eu ainda estava imaginando os cenários prazerosos que consistiam em fugir com Edward para localidades exóticas.
Mike interrompeu minha fantasia. “Como foi seu aniversário?”
“Ugh”, eu rosnei. “Eu estou feliz que acabou”.
Mike olhou pra mim pelo canto dos olhos como se eu estivesse louca.
O trabalho foi uma droga. Eu queria ver Edward de novo, rezando pra que ele tivesse superado o pior, o que quer que isso fosse, até a hora que eu o encontraase.
Não é nada, eu disse pra mim mesma de novo e de novo. Tudo vai voltar ao normal.
O alivio que eu sentí quando virei na minha rua e ví o carro prateado de Edward enconstado na frente da minha casa, foi uma coisa dominante, precipitada. E me encomodou muito que eu tivesse que me sentir dessa forma.
Eu corri pra dentro, gritando antes que estivesse completamente dentro de casa.
“Pai? Edward?”
Enquanto eu falava, eu podia ouvir o distinto tema musical do ESPN
SportCenter vindo da sala de estar.
“Aqui”, Charlie chamou.
Eu pendurei meu casaco no prendedor e corrí pelo corredor.
Edward estava na cadeira, meu pai no sofá. Ambos estavam com os olhos grudados na televisão. O foco era normal para o meu pai. Não muito pra Edward.
“Oi”, eu disse fracamente.
“Oi, Bella”, meu pai respondeu, seus olhos nem se mexeram. “Nós acabamos de comer pizza fria. Eu acho que ainda está na mesa”.
“Ok”.
Eu esperei na porta. Finalmente, Edward olhou pra mim com um sorriso educado. “Eu vou logo depois de você”, ele prometeu. Seus olhos voltaram para a televisão.
Eu esperei por outro minuto, chocada. Nenhum dos dois pareceu reparar. Eu podia sentir alguma coisa, pânico talvez, crescendo no meu peito.

Eu escapei para a cozinha.
A pizza não me deixou nem um pouco interessada. Eu sentei na minha cadeira, levantei meus joelhos, e passei meus braços ao redor deles.
Alguma coisa estava muito errada, talvez mais do que eu pensava.
As vozes de papo e de brincadeira de homens continuavam vindo da televisão.
Eu tentei me controlar, ser razoável.
Qual é a pior coisa que pode acontecer?. Eu vacilei. Essa era definitivamente a pergunta errada pra fazer. Eu estava tendo dificuldade pra respirar direito.
Ok eu pensei de novo, Qual é pior coisa que eu posso viver? Eu também não gostei muito dessa pergunta.
Mas eu pensei nas possibilidades que havia considerado hoje.
Ficar longe da família de Edward. É claro, ele não esperaria que Alice se envolvesse nisso. Mas é claro, se Jasper estava fora dos limites, isso iria diminuir o tempo que eu teria com ela. Eu afirmei com a cabeça pra mim mesma- eu podia viver com isso.
Ou ir embora. Talvez ele não quisesse esperar até eu acabar o ano escolar, talvez tivesse que ser agora.
Na minha frente, os presentes que eu tinha ganhado de Charlie e Renée estavam onde eu os havia deixado, A camera que eu não tive a oportunidade de usar na casa dos Cullen estava ao lado do album.
Eu toquei na capa bonita do livro de recordações que minha mãe tinha me dado, e suspirei, pensando em Renée. De alguma forma, morar longe dela durante tanto tempo quanto eu morei, ainda não fazia a idéia de separação permanente ser mais fácil. E Charlie ficaria sozinho aqui, abandonado.
Ambos ficariam tão magoados.
Mas nós iriamos voltar, certo? Nós iriamos visitá-los, é claro, não iriamos?
Eu não podia ter certeza dessa resposta.
Eu encostei minha bochecha no meu joelho, olhando para as provas físicas do amor dos meus pais. Eu sabia que esse caminho que eu escolhí seria difícil. E, afinal, eu estava pensando na cena do pior que poderia acontecer- a pior coisa que eu poderia viver.
Eu toquei o livro de recordações de novo, abrindo a capa.

Pequenas placas de metal já estavam no lugar pra segurar a primeira foto. Não era uma idéia completamente ruim, colocar algumas recordações da minha vida aqui. De repente eu sentí uma estranha necessidade de começar. Talvez eu não tivesse mais muito tempo em Forks.
Eu brinquei com a correia de segurança da câmera, pensando na primeira foto que havia no filme. Seria possível que ela ficasse um pouco parecida com o original? Eu duvidava. Mas ele não pareceu ficar preocupado com a foto ficar manchada. Eu sorri comigo mesma, pensando na cargalhada livre que ele deu na noite passada. Meu sorriso morreu. Tantas coisas haviam mudado, e tão rapidamente.
Isso me deixou um pouco tonta, Como se eu estivesse numa corda bamba, em algum precipício alto demais.
Eu não queria mais pensar nisso. Eu peguei minha câmera e subí as escadas.
Meu quarto não havia mudado muito desde os dezessete anos em que minha mãe esteve aqui. As paredes ainda eram azul claras, as mesmas cortinas amarelas com lacinhos balançavam na janela. Havia uma cama no lugar de um berço, mas ela reconheceria a colcha amassada em cima dela – ela tinha sido um presente da minha avó.
Sem prestar atenção, eu batí uma foto do meu quarto. Não havia muito mais que eu pudesse fazer essa noite – estava escuro demais lá fora – e o sentimento estava ficando mais forte, era quase uma compulsão agora. Eu documentaria tudo em Forks antes de ter que ir embora.
A mudança estava se aproximando. Eu podia sentí-la. E não era uma coisa muito boa, não quando a vida estava perfeita do jeito como estava.
Eu usei algum tempo descendo as escadas, a câmera na mão, tentando ignorar as borboletas no meu estômago como se elas fossem a estranha distância que eu não queria ver nos olhos de Edward. Ele ia superar isso. Provavelmente ele estava com medo de que eu ficasse chateada quando ele me pedisse pra ir embora. Eu deixaria ele pensar nisso sem atrapalhá-lo. E eu estaria preparada quando ele me pedisse.

Eu já estava com a câmera preparada quando virei quando virei no canto da parede, tentando pregar um susto. Eu tinha certeza de que não tinha chance de pegar Edward de surpresa, mas ele não olhou pra cima. Eu senti um breve arrepio frio como gelo fazer meu estômago revirar; eu ignorei isso e tirei a foto.
Os dois olharam pra mim nessa hora. Charlie fez uma careta. O rosto de Edward estava vazio, sem expressão.
“O que você está fazendo, Bella?”, Charlie reclamou.
“Oh, vamos lá”, eu fingí sorrir enquanto me sentava no chão na frente do sofá onde Charlie estava. “Você sabe que a mamãe vai ligar em breve pra saber se eu estou usando os presentes. Eu tenho que começar a trabalhar antes que ela fique magoada comigo”.
“Mas porque você está tirando fotos de mim?”, ele reclamou.
“Porque você é muito lindo”, eu respondí, continuando calma. “E porque, já que você me comprou a câmera, você tem a obrigação de estar no filme”.
Ele murmurou alguma coisa que eu não entendí.
“Ei, Edward”, eu disse com uma indiferença admirável. “Tire uma de mim e do meu pai juntos”.
Eu joguei a câmera na direção dele, cautelosamente evitando seus olhos, e me ajoelhei ao lado do braço do sofá, onde a cabeça de Charlie estava. Charlie suspirou.
“Você precisa sorri, Bella”, Edward murmurou.
Eu fiz o meu melhor, e o flash disparou.
“Me deixe tirar uma de vocês crianças”, Charlie sugeriu. Eu sabia que ele só estava tentando sair da mira da câmera.
Edward se levantou e suavemente o passou a câmera.
Eu fui ficar ao lado de Edward, e a posição pareceu formal e estranho pra mim. Ele colocou uma mão levemente no meu ombro, e eu coloquei meu braço seguramente ao redor da cintura dele. Eu queria olhar para o rosto dele, mas estava com medo.
“Sorria, Bella”, Charlie me lembrou de novo.
Eu respirei fundo e sorri. O flash me cegou.
“Chega de fotos por hoje”, Charlie declarou, jogando a câmera embaixo de uma das almofadas do sofá e se deitando sobre ela. “Você não tem que usar o filme inteiro agora”.

A mão de Edward caiu do meu ombro e passou casualmente pelo meu braço. Ele se sentou de novo na cadeira.
Eu hesitei, e então fui me sentar na frente do sofá de novo. De repente eu estava tão assustada que minhas mãos estavam tremendo. Eu as pressionei no meu estômago pra escondê-las, coloquei meu queixo nos joelhos e olhei para a tela de TV na minha frente, sem ver nada.
Quando o programa acabou, eu ainda não tinha me movido nem um centímetro. Pelo canto dos meus olhos, eu ví Edward se levantar.
“É melhor eu ir pra casa”, ele disse.
Charlie nem desgrudou os olhos do comercial. “A gente se vê”.
Eu me levantei de um jeito estranho – eu estava rígida por ter me sentado ereta – e seguí Edward até a porta da frente. Ele foi direto pra o carro.
“Você vai ficar?”, eu perguntei, sem esperança na voz.
Eu esperei sua resposta, assim não doeu tanto.
“Não essa noite”.
Eu não perguntei a razão.
Ele entrou no seu carro e foi embora enquanto eu ficava lá em pé, sem me mexer. Eu mal reparei que estava chovendo. Eu esperei, sem saber o que estava esperando, até que a porta se abriu atrás de mim.
“Bella, o que você está fazendo?”, Charlie perguntou, surpreso por me ver lá sozinha e pingando.
“Nada”, eu me virei e caminhei pra dentro de casa.
Foi uma longa noite, sem muitas esperanças de descanso.
Eu me levantei assim que ví uma luzinha fraca pela minha janela. Eu me vestí para a escola mecanicamente, esperando as nuvens se clarearem. Quando eu terminei de comer uma tigela de cereal, eu decidí que já havia luz suficiente pra tirar umas fotos. Eu tirei uma da minha caminhonete, e então uma da frente da casa. Eu fiz a volta e tirei algumas da floresta perto da casa de Charlie. Engraçado que ela não era mais tão sinistra quanto costumava ser.
Eu me dei conta de que realmente sentiria falta de tudo isso- o verde, o tempo que parecia estar parado, o mistério dos bosques. Tudo.
Eu coloquei a câmera na minha mochila da escola antes de ir embora.

Eu tentei me concetrar mais no meu novo projeto do que no fato de que Edward parecia ainda não ter superado os seus problemas durante a noite.
Além do medo, eu comecei a sentir impaciêcia. Quanto tempo isso ia durar?
Só durou a manhã. Ele caminhou silenciosamente ao meu lado, nunca parecendo realmente olhar pra mim. Eu tentei me concentrar nas minhas aulas, mas nem mesmo a aula de Inglês conseguiu captar minha atenção. O Sr. Berty teve que repetir sua pergunta sobre a Sra. Capuleto duas vezes antes que eu me desse conta de que ele estava falando comigo. Edward sussurrou a resposta certa pra mim por baixo do fôlego, e então voltou a ignorar minha presença.
No almoço, o silêncio continuou. Eu sentia que ia começar a gritar a qualquer momento, então, pra me destrair, eu me inclinei por cima da linha invisível da mesa e falei com Jéssica.
“Ei, Jess?”
“Que foi, Bella?”
“Você pode me fazer um favor?”, eu perguntei, pegando minha mochila.
“Minha mãe quer que eu tire umas fotos dos meus amigos pra o meu livro de recordações. Então, tire algumas fotos de todo mundo, tá certo?”
Eu passei a câmera pra ela.
“Claro”, ela disse dando um sorriso largo, e se virou pra tirar uma foto de Mike no flagra com a boca cheia.
Uma foto previsível já havia sido tirada. Eu observei eles passando a câmera pela mesa, sorrindo e paquerando, e reclamando por estarem no filme. Isso me pareceu estranhamente infantil. Talvez eu não estivesse com o humor de uma humana normal hoje.
“Uh-oh”, Jessica disse como se estivesse se desculpando enquanto me devolvia a câmera. “Eu acho que usamos o filme inteiro”.
“Tudo bem. Eu acho que já tirei fotos de tudo que precisava”.
Depois das aulas, Edward andou comigo até o estacionamento em silêncio. Eu tinha que trabalhar de novo, e pela primeira vez, eu estava feliz.
Passar o tempo comigo obviamente não estava ajudando as coisas. Talvez passar algum tempo sozinho fosse melhor.
Eu deixei o filme na Thriftway á caminho dos Newton, e então peguei as fotos já reveladas depois do trabalho.

Em casa, eu dei um breve oi pra Charlie, peguei uma barra de granola na cozinha, e subí correndo pro meu quarto com o envelope de fotos embaixo do braço.
Eu sentei no meio da minha cama e abri o envelope com cautelosa curiosidade. Ridiculamente, eu ainda esperava que as fotos saíssem manchadas.
Quando eu puxei a foto, eu suspirei alto. Edward estava tão lindo quanto era na vida real, olhando pra mim na foto com os olhos cálidos dos quais eu sentí tanta falta nos dias que se passaram. Era quase um mistério que ele fosse tao… tão… acima de qualquer discrição.
Nem um milhão de palavras poderia se igualar a aquela foto.
Eu fui passando a pilhas de fotos rapidamente uma vez, e então separei três delas em cima da minha cama lado a lado.
A primeira era a foto de Edward na cozinha, seus olhos cálidos tocados por um breve ar divertido. A segunda era Edward e Charlie assistindo ESPN. A diferença na expressão de Edward era severa.
Aqui seus olhos estavam cautelosos, reservados. Ainda lindo de tirar o fôlego, mas seu rosto estava mais frio, mais como uma escultura, menos vivo.
A última foto era a de Edward e eu estranhamente lado a lado. O rosto de Edward estava como na última, frio e como o de uma estátua.
Mas essa não era a parte mais perturbadora dessa fotografia.
O contraste entre nós dois era quase doloroso. Ele parecia um deus. Eu parecia muito comum, mesmo para uma humana, quase embaraçosamente normal. Eu coloquei a foto virada pra baixo, sentindo desgosto.
Ao invés de fazer meu dever de casa, eu fiquei colocando minhas fotos no meu album. Com uma caneta eu fiz legendas embaixo das fotos, os nomes e as datas. E peguei a foto de Edward e eu, e, sem olhar muito pra ela, eu a dobrei no meio e a enfiei no aparador de metal, com o lado de Edward pra cima.
Quando eu tinha terminado, eu peguei o restante das fotos, coloquei num envelope novo e as mandei para Renée com uma grande carta de agradecimento.

Edward ainda não tinha aparecido. Eu não queria admitir que ele era minha razão pra ir dormir tão tarde, mas é claro que era.
Eu tentei me lembrar da última vez que ficamos longe assim, sem uma desculpa, um telefonema… Ele nunca havia feito isso.
De novo, eu não dormí bem.
Na escola se seguiu o mesmo padrão silencioso, frustrante e aterrorizante dos outros dois dias. Eu me sentia aliviada quando via Edward esperando por mim no estacionamento, mas o alívio ia embora rapidamente. Ele não estava diferente, A não ser talvez, um pouco mais remoto.
Era difícil até lembrar o motivo de toda essa bagunça. Meu aniversário já parecia um passado tão distante. Se ao menos Alice voltasse. Logo. Antes que isso saísse ainda mais de controle.
Mas eu não podia contar com isso. Eu decidí que se eu não pudesse falar com ele hoje, falar de verdade, então eu ia ver Carlisle amanhã. Eu tinha que fazer alguma coisa.
Depois da escola, eu ia falar sobre isso, eu prometí pra mim mesma.
Eu não ia eceitar desculpas.
Ele me acompanhou até a caminhonete e eu me virei pra fazer minhas perguntas.
“Você se importa se eu aparecer hoje á noite?”, ele perguntou antes de chagarmos na caminhonete, me deixando sem fôlego.
“É claro que não”.
“Agora?”, ele perguntou de novo, abrindo a porta pra mim.
“Claro”, eu mantive minha voz uniforme, apesar de não gostar do tom de urgência na voz dele. “Eu só ia deixar uma carta no correio pra Renée no caminho. Eu te encontro lá”.
Ele olhou para o envelope gordo no meu banco do passageiro. De repente, ele se inclinou por cima de mim pra pegá-lo.
“Eu vou fazer isso”, ele disse baixinho. “E ainda vou chegar lá mais rápido que você”. Ele sorriu o meu sorriso favorito, mas ele estava errado. Ele não tocou seus olhos.
“Ok”, eu concordei, incapaz de sorrir. Ele fechou a porta, e caminhou até seu carro.
Ele chegou em casa antes de mim. Ele estava estacionado na vaga de Charlie quando eu parei na frente de casa. Isso era um mal sinal.
Ele não pretendia ficar, então.

Eu balancei minha cabeça e respirei fundo, tentando acumular um pouco de coragem.
Ele saiu do carro quando eu saí da caminhonete, e veio me encontrar.
Ele se inclinou pra pegar meu livro e minha mochila de mim. Isso era normal. Mas ele jogou tudo de volta no banco. Isso não era normal.
“Venha caminhar comigo”, ele sugeriu numa voz sem emoção, pegando minha mão.
Eu não respondí. Eu não pude pensar em uma forma de protestar, mas eu instantaneamente sabia que era isso que eu queria. Eu não gostava disso.
Isso é ruim, isso é muito ruim, a voz na minha cabeça repetia de novo e de novo.
Mas ele não esperou uma resposta. Ele me levou pelo lado oeste do quintal, onde a floresta começava. Eu seguí sem querer, tentando apensar apesar do pânico. Era isso que eu queria, eu lembrei pra mim mesma. A chance de falar sobre isso. Então porque o pânico estava tomando conta de mim?
Nós havíamos apenas entrado alguns passos dentro das árvores quando ele parou. Nós mal haviamos chegado na trilha- eu ainda conseguia ver a casa.
Que caminhada.
Edward se inclinou em uma das árvores, olhando pra mim, sua expressão estava ilegível.
“Tudo bem, vamos conversar”, eu disse. Isso soou mais corajoso do que eu me sentia.
Ele respirou fundo.
“Bella, nós estamos indo embora”.
Eu respirei fundo também. Essa era uma opção aceitável. Eu pensei que estivesse preparada. Mas eu ainda tinha que perguntar.
“Porque agora? Outro ano-”
“Bella, está na hora. Quanto tempo mais poderíamos ficar em Forks, afinal? Carlisle mal pode fingir que tem trinta anos, a agora ele já está dizendo que tem trinta e três. Nós vamos ter que recomeçar tudo de novo em breve de qualquer jeito”.
A resposta dele me confundiu. Eu pensei que o ponto de ir embora era deixar a família dele em paz. Porque nós tínhamos que ir se eles estavam indo embora? Eu encarei ele, tentando entender o que ele estava dizendo.
Ele encarou de volta friamente.
Com uma onde de náusea, eu percebí que não havia compreendido.
“Quando você diz nós-“, eu sussurrei.

“Eu estou falando de minha família e de mim mesmo” Cada palavra era seperada e distinta.
Eu balancei minha cabeça pra frente e pra trás mecanicamente, tentando clareá-la. Ele esperou sem nenhum sinal de impaciêcia.
Levaram alguns minutos até que eu conseguisse responder.
“Tudo bem”, eu disse. “Eu vou com vocês”.
“Você não pode, Bella. O lugar pra onde estamos indo… não é o lugar certo pra você”.
“Onde você estiver é o lugar certo pra mim”.
“Eu não sou bom pra você, Bella”.
“Não seja ridículo”, eu queria parecer com raiva, mas só pareceu que eu estava implorando. “Você é a melhor parte da minha vida”.
“Meu mundo não é pra você”, ele disse severamente.
“O que aconteceu com Jasper – aquilo não foi nada, Edward! Nada!”
“Você está certa”, ele concordou. “Foi exatamente como o esperado”.
“Você prometeu! Em Phoenix, você prometeu que ia ficar-”
“Enquanto isso fosse o melhor pra você”, ele interrompeu pra me corrigir.
Não! Isso é por causa da minha alma, não é?”, eu gritei, furiosa, as palavras explodindo em mim – de alguma forma, isso pareceu uma súplica. “Carlisle me falou sobre isso, e eu não ligo, Edward. Eu não ligo! Você pode ficar com minha alma. Eu não quero ela sem você – ela já é sua!”
Ele respirou fundo e encarou, sem ver nada, o chão por um momento. A boca dele se contorceu só um pouquinho. Quando ele finalmente olhou pra cima, seus olhos estavam diferentes, mais duros – como se o ouro líquido tivesse virado sólido.
“Bella, eu não quero que você venha comigo”. Ele falou as palavras lentamente e precisamente, seus olhos frios no meu rosto, observando enquanto eu absorvia o que ele realmente queria dizer.
Houve uma pausa enquanto eu repetia as palavras na minha cabeça algumas vezes, analisando elas pra saber seu verdadeiro significado.
“Você… não… me quer?” Eu tentei as palavras, confusa pela forma como elas soavam, colocadas em ordem.
“Não”.
Eu olhei, sem compreender, dentro dos olhos dele. Ele encarou de volta sem se arrepender.

Seus olhos eram como topázio – duros e claros e muito profundos. Eu sentí como se pudesse ver por dentro deles por milhas e milhas, e mesmo assim, ainda não conseguia alcançar o lugar onde encontraria a contradição de suas palavras.
“Bem, as coisas mudam”. Eu fiquei surpresa por como a minha voz soava calma e razoável. Devia ser porque eu estava tão entorpecida.
Eu não conseguia me dar conta do que ele estava me dizendo. Ainda não fazia nenhum sentido.
Ele olhou para longe para as árvores enquanto falou de novo.
“É claro que eu sempre amarei você… de certa forma. Mas o que aconteceu na noite passada me fez perceber que estava na hora de uma mudança. Porque eu estou… cansado de fingir ser uma pessoa que eu não sou, Bella. Eu não sou humano”. Ele olhou de volta, e as formas geladas do seu rosto perfeito eram muito não humanas. “Eu deixei isso ir longe demais, eu lamento por isso”.
“Não lamente”, minha voz era só um sussurro agora; a consciencia estava começando a correr com ácido pelas minhas veias. “Não faça isso”.
Ele só olhou pra mim, e pude ver pelos seus olhos que minhas palavras estavam atrasadas demais. Ele já tinha feito.
“Você não é boa pra mim, Bella”, ele contornou sua palavras anteriores, então eu não tinha como argumentar. Eu sabia muito bem que não era boa pra ele.
Eu abri minha boca pra dizer alguma coisa, e então a fechei de novo.
Ele esperou pacientemente, seu rosto totalmente limpo de emoção. Eu tentei de novo.
“Se… isso é o que você quer”.
Ele acenou com a cabeça uma vez.
Meu corpo inteiro ficou entorpecido. Eu não conseguia sentir nada abaixo do pescoço.
“Eu gostaria de te pedir um favor, porém, se não for pedir demais”, ele disse.
Eu imagino o que ele viu no meu rosto, porque alguma coisa passou pelo rosto dele em resposta. Mas antes que eu conseguisse identificar o que era, ele recompôs o rosto na mesma máscara serena de antes.
“Qualquer coisa”, eu prometí, minha voz estava levemente mais forte.
Enquanto eu observava, seus olhos congelados se derreteram.

O dourado ficou líquido de novo, derretido, queimando os meus com uma intensidade dominante.
“Não faça nada perigoso ou estúpido”, ele ordenou, não mais imparcial. “Você entendeu o que eu disse?”
Eu balancei a cabeça sem saída.
Seus olhos se esfriaram, a distância retornou. “Eu estou pensando em Charlie, é claro. Ele precisa de você. Tome conta de sí mesma – por ele”.
Eu afirmei com a cabeça de novo. “Eu vou”, eu sussurrei.
Ele pareceu relaxar só um pouco.
“E eu te farei uma promessa em retorno”, ele disse. “Eu prometo que essa será a última vez que você vai me ver. Eu não vou voltar. Eu não vou te envolver em nada assim novamente. Você pode seguir a sua vida sem mais nenhuma interferência da minha parte. Será como se eu nem existisse”.
Meus joelhos devem ter começado a tremer, porque de repente as árvores estavam crescendo. Eu podia ouvir o sangue pulsando mais rápido que o normal atrás das minhas orelhas. A voz dele soou muito distante.
Ele sorriu gentilmente. “Não se preocupe. Você é humana – sua memória é como uma peneira. O tempo curas as feridas para as pessoas da sua espécie”.
“E as suas memórias?”, eu perguntei. Parecia que havia algo enfiado na minha garganta, como se eu estivesse sufocando.
“Bem” – ele hesitou por um breve segundo – “Eu não vou esquecer. Mas a minha espécie… nós nos distraímos muito facilmente”.
Ele sorriu; o sorriso era tranquilo e não tocou seus olhos.
Ele deu um passo se distanciando de mim. “Isso é tudo, eu suponho. Nós não vamos te incomodar de novo”.
O plural me chamou a atenção. Isso me surpreendeu; eu pensei que era incapaz de me dar conta de alguma coisa.
“Alice não vai voltar”, eu me dei conta. Eu não sei como ele me ouvir – as palavras não fizeram nenhum som – mas ele pareceu entender.
Ele balançou a cabeça lentamente, sempre olhando pro meu rosto.
“Não. Eles já foram todos embora. Eu fiquei pra trás pra te dizer adeus”.
“Alice foi embora?” Minha voz estava vazia de descrença.

“Ela queria dizer adeus, mas eu convencí ela de que uma despedida limpa seria o melhor pra você”.
Eu estava tonta; era difícil me concentrar. As palavras dele giravam na minha cabeça, e eu podia opuvir o médico que me atendeu em Phoenix, na primavera passada, enquanto ele me mostrava os exames de Raio-X Você pode ver aqui que é uma fratura clara os dedos deles percorriam a figura do meu osso fraturado.
Isso é bom. Significa que vai sarar mais facilmente, mais rapidamente.
Eu tentei respirar normalmente. Eu tentei me concentrar, pra encontrar uma forma de sair desse pesadelo.
“Adeus, Bella”, ele disse na mesma voz calma, pacífica.
“Espere”, eu sufoquei depois das palavras, me inclinando pra ele, esperando que minhas pernas mortas pudessem me levar em frente.
Eu pensei que ele estava se inclinando pra mim também. Mas as mãos geladas dele agarraram minha cintura e se colaram nos meus lados. Ele se abaixou, e colou seus lábios muito rapidamente na minha testa pelo mais breve segundo.
Meus olhos se fecharam.
“Cuide-se”, ele respirou, frio contra a minha pele.
Houve uma leve brisa sobrenatural. Meus olhos se abriram. As folhas das árvores menores tremiam com o vento gentil da sua passagem.
Ele havia ido embora.
Com as pernas tremendo, ignorando o fato de que minhas ações era inúteis, eu o seguí pela floresta. As evidências dos seus passos desapareceram instantaneamente.
Não haviam pegadas, as folhas estavam paradas de novo, mas eu seguí em frente sem pensar. Eu não conseguia pensar em mais nada. Se eu parasse de procurar por ele, estaria acabado.
Amor, vida, sentido… acabados.
Eu caminhei e caminhei. O tempo não fazia sentido enquanto eu me empurrava pelo solo grosso. Eram horas passando, mas também só segundos. Talvez parecesse que o tempo havia parado porque não importava o quanto eu continuasse seguindo em frente a floresta sempre parecia igual. Eu comecei a me preocupar em estar viajando em círculos, um círculo bem pequeno na verdade,mas eu continuava em frente.

Eu tropeçava muito, e, enquanto ia ficando mais e mais escuro, eu comecei a cair frequentemente também.
Finalmente, eu tropecei me alguma coisa – estava escuro agora, eu não tinha idéia do que segurou meu pé – e eu fiquei no chão. Eu rolei de lado, pra poder respirar, e me curvei no solo molhado.
Enquanto eu ficava lá, eu tinha aimpressão de que havia se passado mais tempo do que eu podia imaginar. Eu nem podia lembrar a quanto tempo a noite havia caído. Era sempre assim tão escuro aqui durante a noite? Certamente, como era a regra, alguns raios de lua atravessavam as nuvens, através das rachaduras nas copas das árvores, e vinha encontrar o chão.
Essa noite não. O céu estava completamente escuro. Talvez não houvesse luz da lau hoje – um eclipse lunar, uma lua nova.
Uma lua nova. Eu tremí, apesar de não estar frio.
Estava escuro durante muito tempo antes de eu os ouvir me chamando.
Alguém estava gritando meu nome. Eu estava muda, afundada no chão molhado ao meu redor, mas era definitivamente o meu nome. Eu não reconhecia a voz. Eu pensei em responder, mas eu estava confusa, e eu levei um longo tempo até chegar a conclusão de que eu devia responder. Até aí, os gritos já haviam parado.
Algum tempo depois, a chuva me acordou. Eu não acho que realmente tenha caído no sono; eu só estava perdida num torpor sem pensar, me agarrando com todas as minhas forças na minha torpência que me mantinha sem ver aquilo que eu não queria saber.
A chuva me incomodou um pouco. Estava frio. Eu soltei meus braços das minhas pernas e os coloquei na frente do meu rosto.
Foi aí que eu ouví os chamados de novo. Estava mais longe dessa vez, e as vezes parecia que várias vozes estavam me chamando de uma só vez. Eu tentei respirar fundo. Eu me lembrei que tinha que responder, mas eu não achava que eles seriam capazes de me ouvir.
Será que eu seria capaz de gritar alto o suficiente?
De repente houve outro som, surpreendentemente perto. Um tipo de rosnado, um som animal. Parecia grande. Eu me perguntei se deveria estar com medo.

Eu não estava com medo – só entorpecida. Eu não me importava. O rosnado foi embora.
A chuva continuou, e eu podia sentir a água se acumulando contra a minha bochecha. Eu estava tentando reunir as minhas forças pra mover a minha cabeça, quando ví a luz.
Primeiro era só um brilho fraco se refletindo nos arbustos á distância. Foi ficando mais e mais brilhante, iluminando um grande espaço, diferente de uma lanterna normal ou de um ponto de luz. A luz apareceu pelos arbustos mais próximos, e eu pude ver que era uma lanterna propana, mas isso foi tudo que eu conseguí ver- a claridade me cegou por um momento.
“Bella”
A voz era profunda e não era familiar, mas cheia de reconhecimento.
Ele não estava me perguntando se era eu, ele estava testando o fato de que havia me encontrado.
Eu olhei pra cima – me pareceu impossivelmente alto – para o rosto escuro que agora eu podia ver em cima de mim. Eu estava vagamente cosciente de que o estranho só parecia ser tão alto porque minha cabeça ainda estava no chão.
“Você está ferida?”
Eu sabia que as palavras queriam dizer alguma coisa, mas eu só encarei, desnorteada. Como é que um significado poderia ter alguma importância agora?
“Bella, meu nome é Sam Uley”.
O nome não me parecia familiar.
“Charlie me mandou pra procurar por você”.
Charlie? Uma corda se partiu, e eu tentei prestar mais atenção ao que ele estava dizendo. Charlie me importava, já que nada mais importava.
Ele me estendeu uma mão. Eu olhei pra ela, sem ter muita certeza do que deveria fazer.
Seus olhos pretos me analisaram por um segundo, e então ele levantou os ombros. Num movimento rápido e flexível, ele me levantou do chão e me colocou nos braços.
Eu fiquei lá, flácida, enquanto ele se movia rapidamente pela floresta molhada. Alguma parte de mim sabia que isso devia me aborrecer – ser carregada por um estranho. Mas não havia mais um motivo pra eu me aborrecer.
Não pareceu que muito tempo havia passado antes das luzes e da profundidade das vozes masculinas me chamando.

Sam Uley foi parando enquanto se aproximava da comoção.
“Eu estou com ela!”, ele falou numa voz estrondosa.
Os ruídos pararam, e então recomeçaram com ainda mais intensidade. Um confuso redemoinho de rostos se movia sobre mim. A voz de Sam era a única que fazia sentido no meio do caos, talvez porque meu ouvido estava no peito dele.
“Não, eu não acho que ela esteja machucada”, ele disse pra alguém.
“Ela fica repetindo ‘Ele foi embora'”.
Eu estava dizendo isso alto? Eu mordí meu lábio.
“Bella, querida, você está bem?”
Essa era um voz que eu reconheceria em qualquer lugar – mesmo desnorteada, como eu estava agora, de preocupação.
“Charlie?”, minha voz soou estranha e pequena.
“Eu estou aqui, meu bem”.
Houve uma pequena passagem em baixo de mim, seguida pelo cheiro da jaqueta de couro de policial do meu pai. Charlie cambaleou com meu peso.
“Talvez eu devesse segurar ela”, Sam Uley sugeriu.
“Eu aguento ela”, Charlie disse, um pouco sem fôlego.
Ele caminhou devagar, lutando. Eu queria poder dizê-lo pra me colocar no chão e me deixar caminhar,mas eu não conseguia encontrar minha voz.
Haviam lanternas em todos os lugares, seguradas pela multidão ao nosso redor. Parecia que eu estava num desfile. Ou uma processão de funeral. Eu fechei meus olhos.
“Já estamos quase em casa agora, querida”, Charlie murmurava de vez em quando.
Eu abrí meus olhos de novo quando ouví a porta sendo destrancada. Nós estávamos na varanda da casa, e o homem alto e escuro chamado Sam estava segurando a porta pra Charlie, um dos braços estendido em nossa direção, como se ele estivesse preparado pra me pegar quando os braços de Charlie falhassem.
Mas Charlie conseguiu me passar pela porta e me colocar no sofá da sala de estar.
“Pai, eu tô toda molhada”, eu reclamei febriamente.
“Isso não importa” a voz dele estava áspera. E então ele começou a falar com outra pessoa. “Os lençóis estão no armário no topo das escadas”.
“Bella?”, uma nova voz chamou.

Eu olhei para o homem de cabelo cinza, e o reconhecimento só veio depois de alguns segundos.
“Dr. Gerandy?”, eu murmurei.
“É isso mesmo, querida”, ele disse. “Você está machucada, Bella?”
Eu levei algum tempo pra pensar nisso. Eu estava confusa pela memória da pergunta parecida que Sam Uley havia me feito na floresta. Só que Sam Uley perguntou outra coisa: Você foi ferida? ele havia dito. A diferença parecia mais significante agora.
O Dr. Gerandy estava esperando. Uma sobrancelha grisalha erguida, e as pregas da testa dele ficaram mais profundas.
“Eu não estou machucada”, eu mentí. As palavras eram verdadeiras o suficiente para o que ele havia perguntado.
A mão quentinha dele tocou minha testa, e os dedos dele pressionaram a parte de dentro do meu pulso. Eu observei os lábios dele enquanto ele contava pra sí mesmo, os olhos no relógio.
“O que aconteceu com você?”, ele perguntou casualmente.
Eu congelei embaixo da mão dele, sentindo o gosto do pânico no fundo da minha garganta.
“Você se perdeu na floresta?”, ele tentou. Eu estava consciente de que várias pessoas estavam ouvindo. Três homens altos com rostos escuros – de La Push, da reserva indígena de Quileute que fica na costa, eu imaginei – Sam Uley entre eles, estavam muito próximos uns dos outros e olhando pra mim. O Sr. Newton estava lá com Mike e o Sr. Weber, o pai de Angela; eles estavam todos me olhando com mais suspeitas do que os estranhos. Outras estranhas vozes profundas vinham da cozinha e do lado de fora da porta. A metade da cidade devia estar lá olhando pra mim.
Charlie era o que estava mais próximo. Ele se inclinou pra ouvir minha resposta.
“Sim”, eu sussurrei. “Eu me perdí”.
O médico afirmou com a cabeça, pensativo, seus dedos apertando gentilmente as glândulas embaixo da minha mandíbula. O rosto de Charlie endureceu.
“Você se sente cansada?” Dr. Gerandy perguntou.
Eu afirmei com a cabeça e fechei meus olhos obedientemente.
“Eu não acho que haja nada errado com ela”, eu ouví o doutor dizer pra Charlie depois de um momento.

“Só exaustão. Deixe ela dormir, e eu vou vir checar ela amanhã”. ele pausou. Ele deve ter olhado para o relógio, porque depois ele acrescentou, “Bem, mais tarde, hoje, na verdade”.
Houve um som de que alguma coisa estava se quebrando enquanto os dois se levantavam do lado do sofá e ficavam de pé.
“É verdade?”, Charlie murmurou. As vozes deles estavam longe agora. Eu me esforcei para ouvir. “Eles foram embora?”
“O Dr. Cullen nos pediu pra não dizer nada”, Dr. Gerandy respondeu.
“A oferta foi muito repentina; eles tiveram que escolher imediatamente. Carlisle não queria que sua partida se transformasse numa grande produção”.
“Um pequeno aviso teria sido bom”, Charlie grunhiu.
O Dr. Gerandy pareceu desconfortável quando respondeu. “Sim, bem , nessa situação algum aviso podia ter sido de serventia”.
Eu não queria mais ouvir. Eu agarrei a borda de uma colcha que alguém havia jogado por cima de mim e a coloquei por cima do meu ouvido.
Eu me joguei na correnteza e saí de alerta. Eu ouví Charlie sussurrar um obrigado para os volutários enquanto, um por um, eles iam embora.
Eu sentí os dedos dele na minha testa, e então, o peso de outro lençol. O telefone tocou algumas vezes, e ele corria pra atendê-lo antes que ele me acordasse. Ele murmurava palavras tranquilizadoras numa voz baixa pra os que ligavam.
“É, nós a encontramos. Ela está bem. Ela se perdeu. Ela está bem agora”, ele dizia de novo e de novo.
Eu ouvia o barulho da cadeira quando ele se sentava nela pra passar a noite.
Alguns minutos depois, o telefone tocou de novo.
Charlie gemeu enquanto lutava pra ficar de pé, e então correu, tropeçando, até a cozinha. Eu coloquei minha cabeça ainda mais fundo nas cobertas, sem querer ouvir a mesma conversa de novo.
“Sim”, Charlie disse e bocejou.
A voz dele mudou, ela estava muito mais alerta quando ele falou de novo. “Onde?” Houve uma pausa. “Você tem certeza que foi fora da reserva?” Outra breve pausa. “Mas o que poderia estar queimando?” Ele parecia tanto preocupado quanto confuso.

“Olha, eu vou ligar pra lá e vou checar isso”.
Eu ouví com mais interesse enquanto ele discava o número.
“Ei, Billy, é Charlie – me desculpe por estar ligando tão cedo… não, ela está bem. Ela está dormindo… obrigado, mas não foi por isso que eu liguei. Eu acabei de receber uma ligação da Sra. Stanley, e ela disse que da janela do segundo andar ela vê fogo perto dos penhascos na praia, mas eu não… Oh” De repente havia uma ponta na sua voz- irritação… ou raiva. “E porque eles estão fazendo isso? Uh huh. Mesmo?” Ele disse sarcasticamente.
“Bem, não se desculpe comigo. É, é. Só se certifique de que as chamas não se espalhem… Eu sei, eu sei, eu estou surpreso que eles tenham conseguido acendê-las com esse clima”.
Charlie hesitou, e então acrescentou rancoroso.
“Obrigado por ter mandado Sam e os outros rapazes. Você estava certo – eles conheciam a floresta melhor que nós. Foi Sam que a encontrou, então eu te devo uma… É, eu vou falar com você depois”, ele concordou, ainda azedo, antes de desligar.
Charlie murmurou alguma coisa incompreensível enquanto voltava para a sala.
“O que há de errado?”, eu perguntei.
Ele correu pro meu lado.
“Me desculpe se eu te acordei, querida”.
“Tem alguma coisa queimando?”
“Não é nada”, ele me assegurou. “Só algumas fogueiras nos penhascos”.
“Fogueiras?” eu perguntei. Minha voz não soou curiosa. Ela parecia morta.
Charlie fez uma careta. “Algumas crianças da reserva fazendo desordem”, ele explicou.
“Porque?”
Dava pra notar que ele não queria responder. Ele olhou pra o chão embaixo dos joelhos dele. “Eles estão celebrando as novidades”. O tom dele estava amargo.
Só havia uma novidade na qual eu podia pensar, mesmo tentando não o fazer. E as peças se encaixaram. “Porque os Cullen foram embora”, eu sussurrei. “Eles não gostam dos Cullen em La Push – eu tinha esquecido disso”.
Os Quileute tinham suas superstições sobre “Os frios”, os bebedores de sangue que eram inimigos da tribo deles, assim como eles tinham as lendas do grande dilúvio e a dos homens-lobos.

A maioria delas eram só histórias, folclore. E então haviam os poucos que acreditavam. O bom amigo de Charlie, Billy Black acreditava nelas, apesar de até Jacob, seu único filho, achar que ele era cheio de superstições bobas. Billy havia me avisado pra ficar longe dos Cullen…
O nome causava alguma coisa dentro de mim, alguma coisa que começou a cavar seu caminho de volta para a superfície, alguma coisa que eu sabia que não queria encarar.
“Isso é ridículo”, Charlie falou.
Nós sentamos em silêncio por algum tempo. O céu já não estava mais escuro lá fora. Em algum lugar por trás da chuva, o sol estava começando a nascer.
“Bella?”, Charlie perguntou.
Eu olhei pra ele intranquila.
“Ele te deixou sozinha na floresta?” Charlie adivinhou.
Eu ignorei a pergunta dele. “Como você sabia onde me encontrar?” minha mente criou um escudo contra a inevitável consciência que já estava se aproximando, vindo rápida agora.
“O seu bilhete”, Charlie respondeu, surpreso. Ele procurou no bolso de trás de sua calça e puxou um papel muito amassado. Ele estava sujo e úmido, com múltiplas dobras por ter sido aberto e redobrado muitas vezes. Ele o desdobrou de novo, e o segurou como prova. A escrita bagunçada era incrivelmente parecida com a minha.

Saíndo numa caminhada com Edward, lá na trilha,ele dizia.
Volto logo, B.

“Quando você não voltou, eu liguei para os Cullen, e ninguém atendeu”, Charlie disse numa voz baixa. “Então eu liguei para o hospital, e o Dr. Gerandy me disse que Carlisle havia ido embora”.
“Pra onde eles foram?”, eu murmurei.
Ele me encarou. “Edward não te disse?”
Eu balancei minha cabeça, recuando. O som do nome dele libertou a coisa que estava me rasgando por dentro – uma dor que me deixou sem fôlego, me deixando aturdida com a sua força.
Charlie me olhou duvidosamente enquanto respondia.
“Carlisle aceitou um emprego num grande hospital em Los Angeles. Eu acho que eles o ofereceram um monte de dinheiro”.
A ensolarada Los Angeles. O último lugar pra onde eles realmente iriam.

Eu me lembrei do pesadelo com o espelho… o brilho do sol cintilando na pele dele –
A agonia se apertou a mim junto ás memórias do rosto dele.
“Eu quero saber se Edward te deixou lá sozinha no meio da floresta”.
Charlie insistiu.
O nome dele mandou outra onda de tortura pelo meu corpo. Eu balancei minha cabeça, freneticamente, desesperada pra escapar da dor. “Foi culpa minha. Ele me deixou bem aqui na trilha, na frente de casa… mas eu tentei seguir ele”.
Charlie começou a dizer alguma coisa; infantilmente, eu cobri meus ouvidos. “Eu não quero mais falar nisso, pai. Eu quero ir pro meu quarto.”
Antes que ele pudesse responder, eu me levantei desajeitadamente do sofá e me lancei escada acima.
Alguém havia estado em casa pra deixar o bilhete pra Charlie, um bilhete que o ajudaria a me encontrar. No momento que eu me dei conta disso, uma terrível suspeita começou a crescer na minha cabeça. Eu corrí para o meu quarto, batendo e trancando a porta atrás de mim antes de correr para o Cd Player ao lado da minha cama.
Tudo parecia exatamente igual ao que eu havia deixado. Eu pressionei o topo do Cd Player. O trinco se desprendeu, e a tampa foi se abrindo lentamente.
Estava vazio.
O album que Renée havia me dado estava no chão ao lado da cama, exatamente onde eu o havia colocado da última vez. Eu levantei a capa com uma mão tremendo.
Eu não tive que ir além da primeira página. O pequeno gancho de metal ja não prendia mais nenhuma foto. A página estava vazia, a não ser pela minha própria escrita rabiscada embaixo:Edward Cullen, Cozinha de Charlie, 13 de Setembro.

Eu parei aí. Eu tinha certeza de que ele havia sido bastante competente.
Será como se eu nunca tivesse existido.
Eu sentí o chão de madeira suave embaixo dos meus joelhos, e então as palmas das minhas mãos, e então ele estava pressionado na pele da minha bochecha. Eu esperava estar desmaiando, mas, pro meu desapontamento, eu não perdí a consciência.

As ondas de dor que até agora só haviam tocado em mim agora ficavam mais altas e passavam pela minha cabeça, me afogando.

Eu não emergí.

Outubro

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Novembro

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Dezembro

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Janeiro

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Uma resposta para Lua Nova

  1. juliene graciolla disse:

    crepusculo, assisti e gostei muito nao imaginava que seria tao bom,, estou esperando muito ansiosa pelos outros filmes que serao lancados

    e tambem eu amo EDWARD CULLEN ,ROBERT PATTINSON eh tudo de bom eh um gatao…

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